quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sem poder plantar, seringueiros de Xapuri ameaçam abandonar colocações


Município, que poderia se tornar o principal pólo turístico do Acre, vive miséria

Xapuri tem dois símbolos: Chico Mendes e São Sebastião. Por toda cidade existem imagens do santo padroeiro do município. São Sebastião é ícone de dor, luta e fé.

Historicamente, Xapuri sempre teve essa característica. Foi o local escolhido por Plácido de Castro para começar a tomada da região dos bolivianos. Foi também o centro de embates entre seringueiros e fazendeiros. Nas disputas pela terra muitos tombaram. O mais conhecido deles foi Chico Mendes.

Depois da morte do líder seringueiro, as lutas diminuíram, mas os problemas apontados por ele continuam. Apesar de toda publicidade em torno do nome, Xapuri não consegue emplacar como cidade turística, nem como pólo industrial.

Os locais de visitação estão fechados. A sede da Fundação Chico Mendes precisa urgente de reforma. No prédio ficam em exposição a história de Chico Mendes e objetos pessoais.

A casa onde ele morou está trancada. A esposa do líder seringueiro, Ilzamar Mendes, disse que só vai abrir, quando o Governo do Estado acenar em repassar recursos para a recuperação do patrimônio. Até lá, ninguém entra.

A Casa de Leitura, também ligada a Fundação Chico Mendes, está servindo de abrigo para animais. Existem fezes espalhadas por todo lado.

No mesmo local, o Governo construiu a casa do artesão, um museu, que recebe pouca visitação. Ao lado, uma lanchonete, a Casa Café, também está fechada.
E pensar que esses são os pontos turísticos da cidade.

Por trás das cores - Atrás da casa de Chico Mendes e dos museus passa um esgoto enorme e fétido. No local, moram várias famílias que convivem com os detritos que passam ao lado da casa.

Enquanto na frente, as casas são bem estruturadas e coloridas, é só caminhar dez passos para se deparar com uma imagem de fazer vergonha. O esgoto está desbarrancando e alcançando o quintal dos locais de visitação.

Problema maior - O que vem preocupando os seringueiros não é a visita dos turistas, mas como eles vão sobreviver.

A presidente do Sindicato Rural, no qual Chico Mendes era presidente quando foi morto, alerta: muitos seringueiros podem largar as colocações e voltarem para a cidade.

Segundo Derci Teles de Carvalho, eles não conseguem vender a borracha, e com a lei proibindo as queimadas controladas, não vão poder montar o roçado e conseguir alimento.

A sindicalista, que foi companheira de Chico Mendes, disse até que muitos seringueiros podem partir para o mundo do crime.

A sindicalista explicou que a fábrica de preservativos, a Natex, que fica no município, compra o látex de 806 produtores que ficam entre Rio Branco e Brasiléia.

Cadastrados no sindicato são três mil. Só na Reserva Chico Mendes, são 1,8 mil seringueiros. Os números mostram que mais da metade não tem a venda garantida da borracha.

O prédio, usado atualmente como garagem e situado no pólo industrial, foi o projeto piloto de uma usina de beneficiamento de borracha, mas hoje não é nada.
Sem plantar e com a falta de comércio para a borracha, a área rural de Xapuri enfrenta uma crise.

O retrato disso tudo está no mercado municipal. Nas bancas, apenas dois produtores arriscam vender alguma coisa. O restante está vazio. Para chamar a atenção, um deles colocou as melancias do lado de fora.

Com 16 mil habitantes, Xapuri precisa de atividades que gerem renda para a cidade. Projetos não faltam, mas carecem de novos investimentos.

O pólo moveleiro funciona precariamente. Um dos professores que ensinava jovens da região ficou meses sem receber o salário e pediu demissão. A fábrica de bolas não tem movimento.

O presidente da Câmara, vereador Ronaldo Ferraz, disse que se nada for feito, a tendência é que outras empresas fechem as portas e aumente o desemprego na cidade.

Infraestrutura - O prefeito Bira Vasconcelos enfrenta outros problemas: como garantir a limpeza e infraestrutura.

A cidade tem um bairro que fica do outro lado do rio Xapuri. É preciso atravessar de balsa para chegar a Sibéria.

Aqui, os moradores estão revoltados. O município gastou R$ 288 mil no asfaltamento de três ruas. O serviço foi de péssima qualidade, a rua não tem uma metragem correta. Vai afinando até chegar no final do bairro.

De um lado tem meio fio, do outro não.  Outros não suportaram 15 dias, e já saíram. O asfalto é apenas brita com mistura de massa asfáltica. Os moradores denunciaram o caso à Polícia Federal.

O prefeito Bira Vasconcelos disse que com o Governo está pavimentando várias ruas e melhorando a situação das famílias. A cidade estava toda suja e muita coisa quebrada. Levantar a casa não está sendo fácil.

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