segunda-feira, 30 de maio de 2011

Rio Acre pode dividir cidade de Brasileia e área será da Bolívia


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Degradação do principal manancial do Estado fará com que rio divida terras na fronteira
O segundo encontro internacional para discutir a degradação do rio Acre foi à Cobija na Bolívia, neste final de semana, e descobriu que um bairro de Brasiléia pode apartar-se e virar território boliviano. 

Se isso acontecesse, 428 famílias seriam afetadas, sendo que 30 delas perderiam as residências. 

O bairro Leonardo Barbosa, área periférica de Brasiléia, tem 200 hectares, e está abastecido com serviços públicos como água encanada, energia elétrica e escolas. 

Mas tudo isso pode ser perdido se as duas margens do rio Acre se juntarem. A região fica numa congruência, no qual o rio faz uma curva e retorna muito próximo. A descoberta foi feita pelo engenheiro boliviano, que tem escritório no Brasil, Oscar Soria.

Em 1997, quando fazia pesquisa para sua tese de mestrado, ele mostrou a proximidade dos barrancos e o risco do bairro ser separado. Na época, a distância de uma margem para outra era de 57 metros, mas atualmente é de 20 metros. E há um complicador a mais: na última cheia do rio, em janeiro, o barranco ficou completamente destruído, perdendo parte de sua base. 

A constatação preocupou os vereadores de Rio Branco, que estão realizando plenárias nos municípios cortados pelo rio Acre, em busca de soluções para os ataques que o manancial vem sofrendo. 

O primeiro encontro foi em Iñapari, no Peru. Durante este final de semana, as discussões se concentraram em Cobija, na Bolívia, contando com a participação de vereadores dos municípios dos dois países e o prefeito de Rio Branco, Raimundo Angelim.

Quadro caótico - Além das plenárias, os vereadores visitaram áreas criticas, onde o rio apresenta alto índice de degradação. Existem diversas redes de esgotos construídas pelo poder público, que são despejados diretamente no leito do rio. As comunidade ribeirinhas também apontam seus canos de sanitários diretos para o rio Acre.

As dragas de areia, principalmente de empresas bolivianas, ajudam a aumentar o problema de assoreamento. Elas estão espalhadas por toda a área do rio. Canos de esgotos e dragas se misturam, castigam o meio ambiente, e o rio não deixa barato. Ele também dá uma resposta.

Por toda margem, existem enormes fissuras. São nesses locais onde passam a água do esgoto. Os barrancos cedem, levando casas e tudo que tem pela frente. A rua da Goiaba, no centro de Brasileia, está sendo levada.  As residências que ficavam à margem foram levadas com a queda do barranco. Três enormes crateras ameaçam o restante das casas. 

Os moradores até construíram uma travessia. Foi em vão. Na última cheia, em janeiro, ela foi destruída. Tem morador que tenta reduzir o prejuízo, colocando placa de venda no imóvel, mas será que vende uma casa na iminência de ser tragada pelo barranco?

Saída de emergência - Durante o encontro, o engenheiro Oscar Soria apontou saídas emergenciais, que deram resultado em outras cidades bolivianas ameaçadas de serem tragadas pelo desbarrancamento. 

Com fotos, ele mostrou que é possível construir um muro de contenção, usando bambus e madeira. Outra saída seria pegar o material das dragas e jogar nos pontos críticos, com os anos, a areia protegeria o barranco. 
“O rio Acre tem correntezas para todos os lados, que atingem a parte inferior dos barrancos. Em Assis Brasil já foi constatado afastamento natural do rio, formando uma ilha”, alertou.

Luta antiga – A Promotora de Meio Ambiente, do Ministério Público Estadual, Mery Cristina do Amaral, já realizou e participou de diversas audiências públicas para discutir a situação do rio Acre. 

Tornou-se uma luta particular, mas os resultados nem sempre são otimistas. Para a promotora, que participou do evento, e foi uma das palestrantes, existem dois grandes problemas: a pecuária extensiva e a apropriação das nascentes que ficam nas áreas rurais. “Os proprietários rurais se acham donos dessa água”, explica Mery Cristina. 

A promotora e o prefeito Raimundo Angelim foram homenageados pela Prefeitura de Cobija, pelo trabalho de enfrentamento de degradação do rio Acre. A Conselheira Municipal de Cobija, Síngara Nunes, disse que Cobija não usa a água do rio Acre para consumo. 

Sígara explica que não dá para elaborar políticas públicas para salvar o rio. Existe uma grande instabilidade política na Bolívia e os gestores estão sempre mudando. 

“Quando alguém pensa em fazer alguma coisa logo está fora do cargo”, diz.

Volta no rio Acre - Os vereadores foram conhecer parte do problema do rio Acre. Pegaram um barco e passaram pelo centro comercial de Brasileia. Viram as enormes palafitas que seguram os comércios. Mesmo num barranco frágil, as pessoas se arriscam nessas construções, que ajudam a aumentar a degradação do rio.

Os parlamentares viram: pessoas pescando, tomando banho e a grande quantidade de canos. A única área sem casas na beira do rio é um espaço de 50 metros, mas é porque um incêndio dizimou toda a construção ali existente. No ano passado 16 comércios pegaram fogo, hoje, os comerciantes ainda reclamam que não foram indenizados.

Sem as casas e um muro de contenção,  quem reclama são os moradores do outro lado da rua que estão vendo o barranco sendo levado e as primeiras rachaduras.
Para o presidente da mesa diretora de Rio Branco, vereador Juracy Nogueira, a real situação do rio Acre trás problemas sociais de todas as montas. Como o poder público nunca fez nada, o rio vem sendo atacado, e as pessoas tomaram conta das margens, e quando acontece qualquer acidente, os gestores, terminam sendo responsáveis.
Busca de soluções - O encontro, que estuda a degradação do rio Acre, vai produzir um documento que será analisado numa grande plenária que será realizada em Rio Branco.

Aos deputados federais, senadores e ao governador serão entregues relatórios sobre a situação do rio e as saídas emergenciais.
Antes, será realizado mais um encontro no município amazonense de Boca do Acre, no Amazonas, última cidade cortada pelo rio.Os moradores desta cidade recebem grande parte das impurezas levadas pela correnteza. Reclamam que não existem mais peixes na região e a água contaminada está adoecendo as pessoas.

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