quarta-feira, 9 de abril de 2008

SAÚDE

PIMENTAS Quanto mais quente melhor
Elas melhoram a digestão e protegem contra alguns tipos de câncer. Não bastasse, podem fazer seu corpo torrar aquela gordurinha
por Cida de Oliveira design Giovanni Tinti fotos Dercílio
Verdes e vermelhas, as pimentas mostram seu poder de fogo contra uma série de encrencas, desde dor de cabeça até artrite, passando por reumatismo, má digestão, colesterol alto e doenças circulatórias. Recentemente canadenses e holandeses vieram com uma história ainda mais picante: essa família ardida seria uma ótima ajuda para vencer a obesidade. As evidências vêm de um trabalho em parceria feito por cientistas da Universidade Laval, em Quebec, no Canadá, com cientistas do Centro de Ciências Alimentícias de Wageningen, na Holanda.
Segundo o estudo, o fruto da pimenteira derreteria os estoques de energia acumulados em forma de gordura corporal. Isso graças à capsaicina, substância presente na parte mais esbranquiçada, onde ficam as sementes. Como é a capsaicina que arde, o título desta reportagem é justo.
O mecanismo é simples. Para quebrar os nutrientes da comida e absorvê-los, nosso aparelho digestivo trabalha duro e gasta muito combustível. A capsaicina faz com que ele, nas horas de serviço pesado, se abasteça nos depósitos gordurosos. Esse processo, ainda por cima, aumenta a temperatura corporal e, para dissipá-la, lá se vão mais calorias e calorias. É por isso que ingredientes com essa capacidade são chamados de termogênicos.
"A pimenta no mínimo ajuda no controle de peso", ensina o professor Angelo Tremblay, da Universidade Laval, que investiga o condimento. Entre outras peripécias o pesquisador ofereceu uma entrada bem apimentada a um grupo de voluntários e notou, por meio de complicados testes laboratoriais, que o tempero fez com que consumissem cerca de 200 calorias a mais só para digerir a refeição completa.
A nutróloga e especialista em Medicina ortomolecular Tâmara Mazaracki, do Rio de Janeiro, elege a capsaicina como grande aliada em diversos tratamentos. "Ela reduz a formação de gases e melhora a produção do suco gástrico. Por isso dá uma força na digestão difícil", exemplifi ca. Mas Tâmara faz uma ressalva: "O ingrediente é contra-indicado para quem sofre de gastrite ou úlcera." O mais paradoxal é que a pimenta em si parece ser capaz de combater a Helicobacter pylori, bactéria envolvida nesses males estomacais. Ao menos em tubos de ensaio e tubo de ensaio não sente dor nem queimação - seus compostos deram um basta no micróbio. Ainda assim, até que surjam mais estudos, é melhor ter cautela se o estômago vive reclamando (veja o quadro sobre Medicina chinesa).
LOTADAS DE NUTRIENTES
Quanto às suas propriedades para a circulação, isso ninguém questiona. "Seus componentes anticoagulantes ajudam na desobstrução dos vasos sangüíneos", afirma o nutrólogo e cardiologista Sérgio Puppin, também do Rio de Janeiro. Independentemente da ardida capsaicina se é que dá para se esquecer dela , as pimentas em geral estão cheias de betacaroteno, molécula que se transforma em vitamina A e que tem potente ação antioxidante. Pasme: elas também oferecem cerca de quatro vezes mais vitamina C do que a laranja (se a gente conseguisse comer tanta pimenta quanto pesa uma laranja, mas...). Mesmo em doses moderadas, a mistura caprichada explica a boa atuação do tempero, no uso cotidiano, para prevenir doenças. Recentemente cientistas de Taiwan observaram a morte de células cancerosas do esôfago. Já em Toronto, no Canadá, a pimenta melhorou o funcionamento do pâncreas em cobaias com diabete tipo 2.
Há quem investigue fins terapêuticos bem longe da sala de jantar, especialmente quando se buscam efeitos antiinfl amatórios e analgésicos que, sim, a capsaicina também tem. No caso, formulam-se pomadas e emplastros com o ingrediente ardido, testados em problemas como artrite. Mas, cá entre nós, para os apreciadores, pôr a pimenta no prato é um tratamento preventivo bem mais saboroso.
PARA REGULAR A TEMPERATURA
De acordo com a Medicina tradicional chinesa, a pimenta na comida pode infl uenciar o equilíbrio energético. "Uma gastrite, por exemplo, pode ser causada por questões emocionais que levam ao aumento do calor ou, para nós, energia yang", explica o médico Mauro Perini, professor da pós-graduação da Universidade Federal de São Paulo. "Ou pode ser provocada por um mau funcionamento estomacal relacionado ao frio ou aumento da energia yin. Por ser um alimento aquecedor, a pimenta é contra-indicada no primeiro caso e recomendada no segundo", diz ele, evidenciando a importância do diagnóstico preciso.
UM RANKING DE ARDER
As pimentas que mais provocam a queima de calorias na digestão
IMAGEMTXT1º HabaneroOriginária da região que vai do México à América Central, era cultivada pelos maias antigos. Sua coloração varia, mas sempre tem um sabor que persiste na boca.
IMAGEMTXT2º MalaguetaParenta da mexicana tabasco, é a mais consumida entre as pimentas cultivadas em nosso país e a segunda que mais ajuda a emagrecer.
IMAGEMTXT3º CaienaAnda mais famosa nos laboratórios do que na cozinha. Não faltam estudos, como o realizado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, mostrando que também ajuda a livrar as artérias das gorduras nocivas.
IMAGEMTXT4º Cambuci e cumariIgualmente ardidas, empatadas no quarto lugar, a cambuci é grandalhona e mais adocicada. Já a pequenina cumari, nativa da região amazônica, chega a ser levemente amarga.
IMAGEMTXT5º JalapenoO consumo desta pimenta mais uma de origem mexicana anda associado à prevenção do tumor de próstata, além de acelerar a queima calórica.

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